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Freguesia da Ventosa

«Freguesia do concelho e comarca de Torres Vedras, distrito, diocese e relação de Lisboa. Orágo: São Mamede. […] Na área desta freguesia existe uma nascente de água mineral, hipossalina, denominada Quinta de Charniche. Não resta dúvida alguma de que muitas centenas de anos antes do século XII ou princípios da Nacionalidade, com que começa, a bem dizer, a história desta freguesia, existia no seu território, antes mesmo da dominação romana, pois assim o mostram não só a situação na zona abundantemente arqueológica de Torres Vedras mas principalmente os vestígios locais da existência ou estância de povos, primitivos. O principal indício do facto está na estação arqueológica, junta e acima da Quinta de Charniche, com o seu notável monumento funerário do tipo tholos, que ocupou arqueólogos de renome como Virgílio Correia e Leite de Vasconcelos: circular, pré-histórico, produziu abundante espólio, em que se encontram caveiras humanas e outros ossos, facas de sílex, pontas de seta de cobre, vasos de barro negro, machados de calcário, ídolos cilíndricos, etc.: e outros vestígios de alta antiguidade apareceram nestas imediações. Apesar disto, não pode aceitar-se um povoamento continuado do território desta freguesia desde épocas tão recuadas, aqui sucedendo o facto que de um modo geral caracterizou neste ponto de vista a região de entre o Mondego e Tejo e especialmente a zona litoral: um acentuado, e frequentes vezes completo, despovoamento devido às lutas de dominação árabe ou cristã. A toponímia desta freguesia não oferece provas de incontestável anterioridade em relação ao século XII, isto é, à reconquista definitiva e repovoamento de Torres Vedras e seu termo; e, no entanto, ela é de uma singular exuberância e de um raro valor linguístico. Algumas espécies têm mesmo, sem a menor contestação, ligações germânicas nesse ponto de vista e não recentes: Gualdipeira e Guilhalmeira, por exemplo, apresentam nos elementos iniciais os temas gard- (*Gardipeira), que entra em topónimos do norte do País como Guarda (muito abundante) e outros com ele relacionados (Guardão, Guardizela), todos antigamente assim iniciados, e vilja, que formou na mesma região norte abundantemente topónimos (Guilhade, Guilhamil, Guilhabreu), todos antigamente também assim iniciados. Topónimos de tão remota origem (na aparência) e com tão extraordinária formação, sabido que a antroponímia germânica, a que eles devem o aparecimento não admitia senão dois temas, e nestes casos o segundo é substituído por um ou até dois sufixos portugueses, às vezes com consoantes eufónicas (como o -p- e o -m- de Gualdipeira e Guilhalmeira), representam casos de repovoamento medieval, com uma ou mais famílias provenientes de localidades nortenhas denominadas por um antropónimo germânico cujo primeiro tema era um daqueles. E outros topónimos há nesta freguesia que parecem refletir o mesmo facto histórico, como Moxarreira (talvez, antes, *Moçarreira, alusiva a gente de Monçarros, antigo Mozarros?) e Serpijeira (não alusivo a Serpa, pois isso seria dar ao movimento colonizador medieva um sentido contrário à verdade histórica, mas a Serpins — talvez, por isso, antes, *Serpinzeira), e ainda, talvez, Charniche (acaso, anteriormente, Carniche, que produzisse aquela forma por assimilação, e, por isso, porventura relacionável com topónimos do norte, como Carnicães, e até da região estremenha: Carnota, Carnide, Carnaxide). As derivações, nestes casos, são muito particulares e algo fantasistas, mas não parece por isso menor a sua realidade (que tem perfeito paralelo em Ermigeira, Ribaldeira, etc., neste mesmo concelho). Aos topónimos Gualdipeira, Guilhalmeira, Moxarreira, etc., pode aqui ajuntar-se Bordinheira, o mesmo, possivelmente, que, antes, *Bordonheira (de Bordonhos, povoação beiroa). Mas a riqueza toponímica desta freguesia não para nisto, pois são histórica e linguisticamente notáveis, entre outros, os seguintes nomes: Alumeara, que mais não parece ser que o arcaico’ apelativo *almeara < «almenara» ( < árabe alminara), um sinal da dominação arábica de Torres Vedras; Arneiros, de algum termo arcaico *arneiro ( < latim *arenariu-), de sentido geológico, ou derivado de «arna», cujo significado no norte do País não parece relacionável sempre com o presumido étimo (latim arena); Bemposta, topónimo quase frásico (compare Cedofeita), muito antigo e vulgar no Norte; Bonaval, talvez de «boa valle» (com este termo ainda feminino, como aparece nos inícios da Nacionalidade, e no sentido nortenho de propriedade rústica «vallada», com –n– eufónico e não devido ao étimo de «boa»); Carrasqueira e Carregueira, topónimos «botânicos» (o segundo, derivado de *cárrega < latim *carica, de carex); Cheira, por certo de um apelativo arcaico *cheira, pois seria recuar demasiado para o termo de Torres Vedras supor o étimo (latim *planaria), de sentido topográfico, com a curiosidade local de haver ainda nesta freguesia Cheira Campos e Cheira Matos (em que se elidiu a preposição); Cova da Moura, por certo relacionado com a notável arqueologia local; Fernandinho, que nada deve ter com o diminutivo moderno, mas com o antigo hipocorístico Fernandio (séculos XII-XIV), de Fernandino, possessor local de um casal ou outro prédio rústico; Infesto, do termo arcaico «anfesto» (séculos XII-XIV), significando subida; Matelas, diminutivo medieval de «mata»; Moçafaneira, derivado, talvez, de «moçafe» ( < árabe moshat), outro eco de arabismo, relacionado com a dominação dos mouros em Torres Vedras; Mogo, que deve ser o arcaico «mogo» marco divisório, mas, apesar da antiguidade, talvez, demasiada na região, pode referir-se a monges («mogo» < latim monachu-); Moinho do Frade, que não pode dizer-se relacionável com aquele topónimo; Montengrão, curioso topónimo de Negrão ou só Monte Negrão (compare Valongueiras, de Vale Nogueiras, antes Vale de Nogueiras); Recomeira, derivado, sem dúvida, de «rico-homem» (popular, rico-home > ricome), indicando originariamente a propriedade de um tenente de Torres Vedras ou outro rico-homem; Xaranche, que deve ser o mesmo que «enxara ancha» > *Xaranche (do termo arcaico «enxara» < árabe ex-xara, novo eco do arabismo de Torres Vedras, e do termo romance «ancha» < latim ampla); e ainda Vale de Galegos, com este termo aludindo a colonizadores medievos estrangeiros (nada de surpreender na Estremadura). Esta exuberante e bastante singular toponímia supre de algum modo a falta de documentação diretamente respeitante ao território desta freguesia nos inícios da Nacionalidade, e revela suficientemente a época e características do seu repovoamento após a Reconquista. Apresenta ela ainda dois hagiotopónimos, São Martinho e São Mamede, indícios não menores de antiguidade, especialmente o segundo pois que o primeiro santo é ainda venerado e o segundo não passou talvez dos princípios da Monarquia, sendo muito singular, de facto, o aparecimento de São Mamede na metade sul do País — o que só pode explicar-se considerando a elevada antiguidade do seu culto local, talvez ainda sob a dominação arábica (o que não tem espanto, por muitas razões sabidas e até porque perseverou bispo em Lisboa até à reconquista afonsina, que o vitimou e à maioria da população moçarábica, não reconhecida cristã pelos cruzados). Quanto ao topónimo principal, Ventosa, lugar onde se edificou a igreja, não é fácil precisar a que se refere o adjetivo originário «ventosa». Relacionar-se-á, talvez, com alguma fortificação ou construção arábica (do género das reveladas pelos topónimos Moçafaneira e Alumeara, isto é, de «almenara» e «moçafa»). Da igreja de São Mamede, diz, por informes locais, Pinho Leal que é «muito antiga, mas não se sabe quando nem por quem foi construída». É de três naves, e aqui apresentava cura o abade das igrejas de Sant’Iago de Torres Vedras, tendo o pároco, ainda nos finais dos padroados, 64 alqueires de trigo, trinta almudes de vinho e 7 mil réis em dinheiro, por ano (ou, segundo outras notícias, talvez reportando-se a épocas diferentes, 64 alqueires de trigo, 120 de cevada, 30 almudes de vinho e 57 mil réis em dinheiro). Parte da batalha do Vimeiro, em 21-VIII-1808, desenrolou-se nesta freguesia: «Crenier, brigadeiro de Bonaparte (escreve Pinho Leal), com a sua brigada se fez forte em um viso desta freguesia; mas não pôde resistir ao arrojo indomável do exército luso-anglo, que atacou os franceses à baioneta calada, pondo-os em completa derrota». No administrativo, a freguesia foi sempre termo de Torres Vedras, e participou por isso dos seus forais. A esta freguesia pertencem os lugares de: Adegas, Arneiros. Azinhaga, Barro Vermelho, Bemposta, Bogalheira, Bonabal, Bordinheira, Cadoiço, Carregueira, Casal do Deserto, Costa de Água, Cova da Moura, Estrada, Fernandinho, Figueiras, Moçafaneira, Montengrão, Murteira, Pedra, S. Mamede e Ventosa.»

Fonte: Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XXXIV, Lisboa, Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, 1978, pp. 579-581.

Nota: Procedeu-se a uma atualização da ortografia, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, com a exceção dos topónimos, atendendo ao seu valor linguístico; respeitou-se a pontuação; desdobraram-se as abreviaturas.

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